E agora sobre o dono do Baú: o Guarda-Freio 824

O Guarda-Freio 824, a quem pertenceu o baú representado na imagem do post anterior, possui um trajecto de vida digno de ser contado.

  

Quando convidado a vir partilhar connosco a sua experiência de vida pessoal e profissional, no projecto de recolha de história oral que o museu desenvolveu em parceria com o Museu da Pessoa em 2002, este ex-Guarda-Freio começou assim:

 “Chamo-me António Augusto Ribeiro. Nasci a 1 de Julho de 1926, na residência do meu pai, em Nespereira, Lousada.

Com alma de poeta, O Sr. Augusto Ribeiro, teve como referência o poeta Luís de Camões, que dizia ter encarnado; (…) ” O segundo Camões e o melhor poeta do mundo nasceu”.

Entrou para o Serviço de Transportes Colectivos do Porto no ano de 1953, com 27 anos, como Cobrador. Vinha para ganhar 22 escudos por dia, pagos à quinzena.

E contava o dia-a-dia assim:

(…)“Um dia um fiscal apanhou um bilhete picado em zona 1 de Leça quando devia ser em zona 4. O bilhete estava mal picado. O fiscal apanhou-me e foi fazer queixa ao inspector. O fiscal quando ia fazer a revisão fazia apontamentos de todas as senhas que estavam sãs. Eu, então fui falar com o Sr. engenheiro e perguntei-lhe se valia a pena pôr um inocente na rua por ter aparecido um fiscal. Lá fui absolvido. Mas foi por causa de estar sujeito a este tipo de conflitos que depois fui pedir para passar para guarda-freio.”

(…) Uma vez tive um acidente em Gomes da Costa, e ainda disse:

– “Fujam, fujam que eu não seguro o carro.”

O carro começou a deslizar e eu não o conseguia segurar. A areia, às vezes, funcionava e outras vezes não. Por vezes também havia na linha folhas de árvores. Não consegui parar o carro e ele acabou por bater num automóvel. Cheguei a ter muitos acidentes mas a culpa não foi minha. Também tenho diplomas de bom condutor.

Uma ocasião estava a chegar a Gomes da Costa, estava a parar e uma senhora meteu-se à minha frente e eu tive de meter a contra-corrente. Não se deve meter a contra-corrente, mas para salvar uma vida faz-se tudo.

(…) Uma ocasião também salvei o Júlio Iglésias, o cantor, em frente ao Bessa. Foi para aí há 30 anos. Eu vinha a descer em frente ao Bessa, o carro dele atravessa-se à minha frente e eu tive de meter contra-corrente. Eu ia para Pereiró para recolher. Eu saí do carro e disse:

– “Então o Sr. não viu o que fez? Então o Sr. atravessa-se por aqui e vê que se eu não aplico a contra-corrente ficava tudo desfeito?!”

Ele disse assim educadamente:

– “O senhor desculpe que eu não sou de cá, desconhecia que passavam aqui eléctricos.”

Eu disse assim:

– “Eu fico com a matrícula do senhor, mas o senhor vai agora para a Boavista, que eu chego a Pereiró, vou para a Boavista e fazemos a participação.”

Cheguei à Boavista e vejo uma romaria de gente, um desfile de gente e aquele senhor a dar autógrafos. Só aí é que soube que ele era uma figura pública. Ele veio ter comigo e disse assim:

– “Diga que foi só uma esmurradela.”

E agora sinto-me feliz quando ouço a cantar aquelas cantigas e aquelas coisas. Eu sinto-me feliz, sinto-me feliz, mas só agradeço a Deus. Deus também está muitas vezes metido nestas coisas.

Mas o Sr. Augusto Ribeiro também nos falou sobre o seu Baú (…) “Dentro do baú que está no Museu deve estar a minha boa condução, o meu pensamento disto. Também lá ia o meu tachinho. Era costume os eléctricos levarem o baú com a comida. Tinha um papel que dizia: “Deixar  na praça, guarda – freio 824.” Lá dentro vinha uma sopinha, qualquer coisinha para a gente comer e uma garrafinha de vinho. Na Boavista púnhamos a comida a aquecer no refeitório.

Trabalhou na empresa 30 anos. A partir do ano de 1983 passou a dedicar-se aos seguros e à venda de queijo e, claro, a escrever os seus poemas.

Falecido recentemente não deixamos de o recordar sempre pelo que representou para o Museu nos seus últimos anos. E aproveito para deixar aqui as palavras que esperava que fossem ditas quando enfim deixou de respirar:

Hoje que Deus me levou
Não chorem que é o Destino.
Ele já ficou traçado
Dos meus tempos de menino.
 
Fui um poeta romântico
E cumpri a minha sina.
Fui um jovem tão feliz
E formei uma família.
 
Meu Deus peço-te perdão
Se algum dia te ofendi
 
Já que me mandaste
Para este mundo
Leva-me para junto de ti.
 
O teu coração é tão grande.
Grande é teu amor por nós.
Leva-nos todos para ti.
Não nos deixes ficar sós.

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