Uma história do Baú

No último numero da revista Itinerarium da STCP foi solicitada a identificação de um objeto em forma de baú pertencente às coleções do Museu.

Recebemos do antigo inspetor Cardoso Moreira (MG 5385)o seguinte testemunho que não podemos deixar de partilhar pela forma extraordinária como nos conta uma história repleta de memórias e de significados a partir de um simples objeto.

MEMÓRIAS DA STCP

BAÚ

Eu sou o BAÚ do guarda freio n.º 824! É como chamavam à fotografia inserida no ITINERARIUM STCP SA  n.º 17. Tinha muitos colegas, todos identificados com a categoria e número que o patrão tinha na Empresa! Sou de uma família que em devido tempo ocupou na sociedade diversas funções. Desde servir para transporte de mercadorias diversas, ou mesmo ser o guardião de ricas jóias e valores. Claro, que nem todos tinham a mesma história que eu! A minha função, como a de tantos meus colegas, era o transporte da refeição para o meu patrão. Todavia, durante o nosso percurso de vida, uns tiveram mais sorte do que outros, encontraram pessoas mais aptas e propiciadas a lidarem connosco, outros nem por isso. Naturalmente que uns, foram mais nobres na refeição que transportaram – era essa a nossa função – outros, mais modestas! Uns estavam mais bem conservados, sempre de pintura fresca e bonita, outros a acusarem a falta de conservação! Tudo isto valia para a nossa auto – estima.

Recordo, que normalmente o nosso destino a partir da linha mais próxima da morada do patrão, era: Bolhão, Praça da Liberdade, Praça da Batalha, Cordoaria, Boavista e Massarelos.

As patroas, esposas dos funcionários, sobretudo do MOVIMENTO, mas também as de alguns das oficinas, ou via e obras, dirigiam-se ao guarda freio que conduzia o eléctrico que coincidia com o horário indicado pelo meu patrão e, pediam ao guarda – freio para me deixar no local previamente com ele combinado, onde ele me iria levantar. Após isso, dirigia-se para onde houvesse o refeitório mais próximo – Praça da Liberdade, Avenida dos Aliados, Boavista e Massarelos –  e lá tomava a refeição que eu guardava no meu interior. Alguns guarda-freios eram amáveis, acolhiam-me com simpatia e deixavam-me onde a minha patroa pedia. Outros, recusavam-se terminantemente, – não a transportar-me, – mas a desembarcar-me no local pedido; não assumiam o compromisso de me desembarcar, se não estivesse lá alguém à minha espera para o fazer. Havia outros, que, apesar de toda a simpatia e boa vontade, se esqueciam de mim e eu lá continuava a viajar no cantinho da plataforma onde me colocavam, até ele, ou alguém que me visse, o chamasse atenção para esse facto. Então, muito aflito, o guarda-freio fazia parar o primeiro carro com que se cruzava, e pedia ao seu colega para me deixar no local do compromisso. Muitas das vezes, este lapso não era transmitido ao meu patrão, que, no seu subconsciente atribuía logo aquele atraso à distracção e falta de rigor de sua esposa. Eu quando chegava a casa na companhia dele, assistia a uma discussão estéril entre os dois, devido ao meu atraso na chegada, sem poder repor a verdade da causa daquele atraso. Alguns guarda-freios que tinham esse lapso, quando identificados, eram admoestados severamente pelo meu patrão e, eram esses que futuramente, se recusavam terminantemente; não a transportar-me, mas a comprometerem-se a desembarcar-me no local pedido. Devo esclarecer, que quando o patrão já estava à minha espera, tudo corria melhor.

O Dono dos carros eléctricos, STCP, nalgumas expedições punha um ajudante ao expedidor a quem chamavam: telefonista! Esse ajudante era utilizado no meu desembarque e nas transferências que eu por vezes tinha de fazer, para chegar ao local que a minha patroa escrevia num papel e com um fio segurava à minha asa, indicando o meu destino final. Eu podia ir parar a qualquer ponto dos já citados, mas ter interface para outros destinos.

Nalguns casos, eu acompanhava o meu patrão para o trabalho, já com a refeição dentro. Ele, deixava-me depois num dos refeitórios da Empresa, com a indicação escrita  ao funcionário que ali se encontrava em serviço, para pôr o que eu transportava, a aquecer para determinada hora. Curiosamente, nem sempre o meu patrão aparecia à hora indicada no panfleto, talvez por ter de fazer mais uma viagem por falta do colega para o render, ou atraso na sua última viagem. Se o funcionário que lidava com os tachos era competente, retirava o tacho após poucos minutos da hora marcada. Se era desleixado ou distraído, (mau profissional, sem brio), ficava o tacho super aquecido. Eu Baú, assistia a mais um verbalismo desagradável entre o meu patrão e o funcionário, ambos a questionar a sua razão, porque o funcionário pouco brioso argumentava que cumpriu com rigor aquilo que o meu patrão deixou escrito. Com alguma petulância dizia: esta letra não é tua? Ora então lê o que escreves-te! O meu patrão para evitar retaliações futuras, muitas das vezes acobardava-se, aprendia a lição e em casos análogos pedia ao expedidor e telefonava para o refeitório a pedir que retirasse o seu tacho do fogão, ou então dava indicação para outra hora, para ele não requentar ou estorricar. Os refeitórios, (excepto o da Praça da Liberdade – era uma sala muito pequena num fundão nada agradável) estavam equipados com um enorme fogão eléctrico rectangular  de um só disco, onde cabiam muitas marmitas em simultâneo e o seu calor também era moderado, mesmo quando era graduado para o máximo. Só com muito tempo de permanência da marmita, é que entrava em ebulição o seu conteúdo.

Viajei muito! Sozinho, ou acompanhado, assim como muitos colegas meus, que até viajavam de comboio, ou mesmo num tabuleiro em grupos de seis, transportados à cabeça de uma ou outra senhora, com o almoço para senhores bem colocados profissionalmente. Fui o guardião da alimentação do meu patrão e apreciava imenso a chegada a casa, porque normalmente as crianças iam logo tirar-me da mão do patrão e escancarar-me a tampa, para ver se havia ali alguma sobra; cuja sobra, eles apreciavam com alguma avidez e sofreguidão. Penso que o meu patrão deixava sempre um restinho, porque também apreciava aquela avidez da pequenada e não os queria desiludir. Dava a ideia, que um restinho de comida ou mesmo um bocadinho de broa que eu transportasse de volta, era mais apreciada do que aquela que havia em casa, até com alguma fartura. Eu ficava enternecido com o roçar daquelas mãozinhas pequenas, que me iam retirar das mãos do patrão e especulavam o meu interior e o da marmita, na ânsia e curiosidade que houvesse alguma sobra.

Era muito utilizado nessa altura, para o transporte de almoços ou jantares e outros! Tinha uma base que resistia a qualquer força centrifuga que em mim fosse exercida, ou mesmo a qualquer empurrão que involuntariamente me dessem. Por isso, as classes menos abastadas, utilizava-nos para vários fins! Estou a lembrar-me da classe piscatória, que nos utilizava muito para o transporte da comida num dos sentidos, e para transporte do peixe no outro. Os pescadores, tinham direito a uma porção de peixe que ajudavam a pescar, a que chamavam : caldeirada! O peixe não podia viajar no carro eléctrico à vista, e nós, éramos um bom esconderijo para ele viajar sem pagar e sem comprometer ou incomodar os funcionários da STCP, que tinham responsabilidade e  obrigações connosco. Recordamos, um Sr. Passageiro, que morava e embarcava na foz. Se entrasse um fiscal no carro em que algum de nós e ele viajássemos, atrevia-se a acusar-nos de transportarmos peixe! O que nem sempre era verdade. Era conhecido pelos nossos “amigos” – cobradores e guarda freios, pelo: “Careca da Foz” – um passageiro bem conhecido de todos, não pelas melhores razões. Foi um grande inimigo que tiveram os meus colegas, enquanto serviram os pescadores!

A evolução dos tempos dispensou-nos de muitos trabalhos e ficamos no “desemprego”! Com isso, também pusemos no desemprego alguns latoeiros – funileiros. Todavia, outras industrias nasceram, outras especialidades, outras formas de vida mais suave e menos penosa para todos, onde já não era necessário a nossa presença, o nosso trabalho! Não ficamos tristes por ficarmos apenas para a história, porque temos, – narcisismo à parte – uma linda história de trabalho, de companheirismo e lealdade servil!

Aqueles meus colegas, guardiões de jóias e valores, deixaram na voz popular um dito, a lembrar o nosso nome pelas gerações futuras, embora não pela melhor causa. È que, quando eram assaltadas as casas que os possuíam, como estavam fechados a cadeado, o larápio com uma faca ou outro instrumento cortante, dava um golpe na chapa, abria um buraco, por onde depois retirava os valores que os meus colegas guardavam. Criou-se a partir desse procedimento um dito muito popularizado, que chegou até aos nossos dias e que perdurará no tempo. Quando alguém mostra sinais exteriores de riqueza sem se saber muito bem a sua procedência, logo é aplicado o aforismo, mesmo por muitos que nem nos conhece: DEU O GOLPE NO BAÚ! 

Cardoso Moreira, antigo inspector coordenador, M. G. 5385. ” 

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